Paula Valéria Andrade: “Sempre estarei aberta para trocas e prosas poéticas”

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Paula Valéria Andrade: “Sempre estarei aberta para trocas e prosas poéticas”

Paula Valéria é uma poeta fantástica e admiradora da poesia de Manoel de Barros e outros grandes nomes da poesia brasileira. (Foto: Roberto Candido)

PAULA VALÉRIA ANDRADE – Poeta, escritora e artista visual. Atua como cenógrafa, figurinista e diretora de arte em teatro, TV e cinema desde 1990. Publicou 17 livros autorais: poesia, didático, arte-educação, oito antologias poéticas (nacionais e internacionais), e seis livros-infantis. E, o e-book antologia poética digital – “Saciedade dos Poetas Vivos”, 2008. Recebeu prêmios em Portugal, Itália, EUA, e no Brasil: o Jabuti e APCA. Em 2016, ganhou “Menção Honrosa” por sua poesia na FALARJ (Federação das Academias de Literatura e Artes do Rio de Janeiro). Residiu 10 anos na Califórnia e hoje, vive em São Paulo.

 

1 – Como descobriu Manoel de Barros e o que acha determinante em sua obra poética?

Conheci Manoel de Barros em 1990, quando o editor de poesia Alonso Alvarez, (na época) da Editora e Livraria Arte Pau Brasil, me convidou para fazer o cenário e figurino do espetáculo “O Coração Verde dos Pássaros”. Foi no Teatro Abujamra, ali no Bexiga, bairro Bela Vista de São Paulo. Ele resolveu dirigir a peça e me convidou, pois eu tinha acabado de estrear em “Peer Gynt” no Teatro Sergio Cardoso, como cenógrafa e figurinista aos 21 anos e éramos amigos. Recordo bem, que ele conseguiu que o Manoel cedesse os direitos autorais para fazer a montagem, porque havia editado alguns de seus textos poéticos. Tenho até hoje esse livro, de capa verde e guardo com muito carinho o primeiro autógrafo que obtive desse grande mestre das palavras e da nossa poesia brasileira. Uma grande honra na minha estrada.

Sua obra para mim é inusitada e requintada ao mesmo tempo, traduzindo um olhar muito apurado e sem vícios de uma linguagem pré-estabelecida, indo na contracorrente dos ditos acadêmicos e doutos. Com todo respeito aos letrados das universidades, Manoel nadou contra o fluxo do rio, valorizou o musgo, a lama, insetos, sentimentos e coisas que são a antítese da construção de uma poesia já esgotada e pré-fabricada na cola de outros autores. Ou seja, ele foi na contramão da produção geral. Reinventou binóculos. Criou uma sintaxe própria. Algo mais próximo de Oswald de Andrade do que de Guimarães Rosa, como ele mesmo dizia em entrevistas. Atribuiu a língua-linguagem que criou de “Vanguarda Primitiva”, mais uma de suas contradições em termos, imprimindo sua marca. Porém, tudo com sutil primazia e sofisticação dentro do simples. Por ser original, foi imenso. Total. E único. Amo sua poética. Evoé!

2 – Fale um pouco do seu trabalho e compromisso com a poesia e literatura em São Paulo e mundo!

Sou uma observadora da condição humano urbana, como poeta, artista-designer e escritora, sendo autora de livros infantis, de arte e teatro. Busco nas entrelinhas da vida, os percalços dos caminhos entrelaçados. Desde criança me inspiro nas diferenças, nas questões de diversidade étnica e cultural. Tornando-me adulta, fui imigrante nos Estados Unidos aos 21 anos e depois na Alemanha e Inglaterra entre os 23 e 27 anos. Entre idas e vindas. Percebi então na pele as questões de imigração, fronteiras, direitos humanos, preconceitos e estereótipos. No Texas, em Austin, ainda como estudante e aos 20 e poucos anos, participei de uma exposição como poeta e artista gráfica, organizada pela Sylvia Orosco no Mexican – Art Museum (na Congress Avenue), denominada “NO Stereotypes!”. A questão ali, nos anos 90, já era a de se trabalhar com arte e debates na conscientização dos estereótipos contra latinos e afro-americanos. A partir daí, fiquei mais alerta aos direitos humanos, as questões das opressões sociais, e nas minhas andanças pelo mundo fui registrando observações focadas nas urbes, os tipos e seus múltiplos personagens cotidianos, as situações que retratam isso, para o bem, ou para o mal. Inspirei-me no “flaneur” de Baudelaire. Fiz um texto sobre isso. E fui fazendo o meu mural pastiche de impressões e colagens poéticas em retratos urbanos. E traços do tal cotidiano, fatos, tipos, momentos flagrados em recortes caleidoscópios. No início era como fotografar com a palavra. Por ser artista visual, a primeira imagem de uma cena, sempre me fala muito. Depois com o tempo, fui buscando e desenvolvendo mais a linguagem, e passei a retirar tudo que rebuscasse ou explicasse muito o próprio texto. Aprendi com mestres. Subtraí adjetivos fáceis. E depois, passei também a elaborar poesias e textos com os tempos de memória, o que vai acontecendo com o amadurecimento da escrita. Sou uma poeta contemporânea e minhas influências são inúmeras, gosto de muitos estilos. Tenho compromisso com a liberdade de expressão, os diretos igualitários e básicos para todos no planeta, independente do gênero, e o respeito e a aceitação das diferenças, como as paletas de cores e os sabores palatáveis da natureza. Amo o inusitado e a reinvenção de formas. Para mim, o artista deve ser um constante criador e rearranjador de novas vertentes. Reorganizador de vértices, um constante redesenhador de novas linhas. Para-raios de seu entorno social (e moral) e processador desses sistemas. Espelho para tantos. Eco.

Simpatizo muito com a poesia concreta, e Ferreira Gullar na sua tentativa do neoconcretismo, amo o surrealismo do Roberto Piva, assim como amo a influência yankee e rasgada dos Beatniks, e a precisão samurai do Paulo Leminski. Sem contar que sou fã incondicional de autores que reinventam a linguagem seja por sintaxe, quebra de paradigmas ou por neologismos como o Manoel de Barros, Oswald de Andrade e Guimarães Rosa. Não poderia jamais esquecer das escritoras que me influenciaram tanto, como Virginia Wolff, Marina Colasanti, Alice Walker, Lygia Bojunga Nunes, Florbela Espanca, Hilda Hilst, Olga Savary, Clarice Lispector, Cora Coralina e Lygia Fagundes Telles. Entre tantas outras autoras incríveis (poetas ou não), elas me fizeram perceber, que a linguagem é uma voz interna que te sopra o voo da próxima palavra, e é ligada e enraizada na tua essência pessoal. As vezes vivência, as vezes devaneios. E em muitas, simples anseios. Somos o que pensamos, e vivemos o que somos.

3 – Num país onde pouca gente lê, o que fazer para a poesia alcançar mais espaços.

Leituras, saraus, valorização da palavra e oficinas do fazer poético. Fácil dizer, não é? Mas na prática, fica tudo muito mais complexo. A sensibilização para a leitura e a poesia é uma grande batalha travada há anos por muitos educadores e profissionais das letras. Gostaria de sinceramente ver isso com um maior alcance para todos. Embora hoje, já podemos ver uma crescente valorização da poesia, e um maior número de saraus pelas cidades, tanto em museus e espaços privilegiados, como em bairros de periferia e em espaços alternativos, assim como também não governamentais, vindos de grupos e movimentos independentes, e não víamos isso dessa forma, nesse tipo de profusão nos anos 90 ou 2000. A poesia falada, o Slam vem crescendo muito, e o hip-hop e o rap valorizam essa cena e trazem novos talentos e formatos do fazer poético para os jovens e um grande público. Hoje a poesia está no spray, na música, nos muros, na web, nas camisetas, nos aplicativos digitais, nos postais e nos livros. Acho bem mais vivo, do que quando eu era criança e adolescente. E isso é muito bom. Viva… Evoé!

4 – Cite uma obra literária que você não lerá novamente, porque?

Não me lembro de nada que tenha odiado tanto a ponto de não reler. Sou muito seletiva e criteriosa e quando vou ler um livro, escolho bem antes. Escuto indicações de pessoas com as cabeças que respeito, e também leio resenhas. Pesquiso. Talvez na infância, tenha tido algo que achei meio chatinho, mas não me lembro tão bem a ponto de nunca mais querer saber do livro ou do autor. Acho que tive sorte! (Risos)

Sou do tipo que releio livros, revejo filmes, revejo espetáculos teatrais e ouço a mesma música várias vezes como que indo e voltando na linguagem para dissecar o que o autor – diretor- compositor quis dizer com aquilo. Para mim é um exercício rever coisas, sempre redescubro significados. Mas claro, para fazer isso tenho que amar a obra. Ou pelo menos ficar intrigada com a visão ou abordagem dela. A interpretação da expressão do outro é algo fascinante, seja do texto, ou de qualquer linguagem ali oferecida.

5 – Qual poeta brasileiro que você gostaria de passar um dia inteiro conversando. Quais os temas você falaria com ele.

Para ser sincera, os que eu gostaria mesmo já se foram. É claro que tem poetas contemporâneos vivos e geniais e tenho uma admiração enorme por eles. Sempre estarei aberta para trocas e prosas poéticas. Gosto de conhecer gente. Mas o que eu gostaria mesmo, era de ter conhecido bem de perto e de ter conversado profundamente com a Virginia Wolff, a Clarice Lispector e o Guimarães Rosa. E também o mestre Manoel de Barros, que conheci, mas troquei poucas sílabas, na época por timidez. Trago aqui dentro um alento e uma sincera gratidão por tudo o que eles deixaram para todos nós.

Nas Nuvens

Caminho

Nas nuvens

a passos soltos

Flutuo

Fluindo em

ares de encanto

E no universo,

de quem

só usa sapatos,

Gosto de andar de pés descalços.

Paula Valéria Andrade – 2012

(Poema a sair no próximo livro em 2017)

 

 

2 Comentários

  1. Alex Fraga disse:

    Ela é ótima Euclydes. Abs

  2. Euclydes Bezerra disse:

    É muito bom sentir a poesia à flor da pele e senti-la dançando no ar, mesmo quando tudo é silêncio. Nos respirares da Paula Valéria, a poesia pulsa e rima nas suas quietudes. Isso é quase um sonho. Parabéns meu amigo Alez pela entrevista e parabéns à Paula pelo prazer que nos deu ao viver a poesia em forma de prosa nessa entrevista.

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