Cândido da Fonseca: “O cinema é uma grande ferramenta educativa”

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Cândido da Fonseca: “O cinema é uma grande ferramenta educativa”

Cinesta Cândido Alberto da Fonseca fala sobre fazer cinema em Mato Grosso do Sul. (Foto: arquivo pessoal)

CÂNDIDO ALBERTO DA FONSECA – Nascido em Campo Grande, jornalista, cineasta e escritor. Formado em jornalismo pela Universidade Gama Filho do Rio de Janeiro, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa (Portugal), cursou Ciências Políticas pelo Instituto de Ciências Sociais de Moscou. Tem curso de cinema pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; foi diretor de produção e produtor executivo de cinema pela Embrafilme; repórter do caderno de cultura do jornal “O Globo” do Rio de Janeiro. Autor de peças de teatro premiados nos festivais de teatro de Mato Grosso do Sul; autor do livro Festivais de Música em MS, patrocinado pela FUNARTE. Atualmente é assessor de Comunicação e Cultura da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

 

1- Fale sobre seu projeto atual, o “Memórias”, como surgiu?

O projeto “Memórias” surgiu numa causalidade. Eu havia dito ao Athayde Nery na ocasião de sua posse, que a Fundação de Cultura deveria mesurar seus investimentos, abrir um escritório de negócios para produções mais caras, responsabilizando as partes. Mudar a forma de aprovação dos editais e dos recursos para projetos, limitar a ação dos interessados para que todos possam ter acesso aos recursos e tornar seus museus vivos. Basicamente isso. Colocar o subsídio e o investimento no patamar do capitalismo, sem abandonar as questões originadas da política e do apoio aos municípios. Para tanto algumas medidas deveriam ser tomadas como: Reunir a categoria para discutir esse assunto; abolir essa democracia da maioria que não interessa ao produtor cultural e seus projetos mais elaborados. Isso por uma questão cultural; modificar o conceito de participação da sociedade na prática produtiva que na realidade é uma balela discursiva; programar a ação dos museus para se tornarem vivos e ativos na sociedade, restaurando, cursos, seminários e conferências, encontros, inclusive festivais, com custos sociais devidamente articulados. Enfim, a tão decantada sustentabilidade de longo prazo de um órgão governamental. Para tanto não acho interessante desse negócio de estar perto do “rei” através de uma Secretaria. Pra mim, mais um cabide de empregos e gastos com pessoal sem experiência e sem compromisso com a produção cultural. Nesse contexto aparece a partir de uma reunião com a Comissão da Verdade, um convite para que eu fosse produzir o audiovisual do convênio. Atendi ao convite e propus o chamado “Memórias da Ditadura”. Aprovado pelo secretário imediatamente, coloquei o projeto em andamento e vendo o MIS – (Museu da Imagem do Som) no contexto, achei por bem ampliar a ideia para uma prática democrática de recolhimento de depoimentos dos produtores culturais, todos sobre suas vidas que não existe em caráter formal em nenhum lugar. Esse projeto de formato modular serve para todas as plataformas de comunicação e já está quase pronto em sua totalidade de primeira e segunda fase que são 150 “atores” do desenvolvimento social de MS. Começamos em junho e não recebemos a ajuda combinada até agora.

 2 – Existe algum apoio concreto nesse projeto tão interessante. Fale-me dos gastos e recursos necessários.

Esse projeto conta com uma equipe de 6 (seis) pessoas entre produtores, câmeras, editores, artistas gráficos e aluguel de equipamentos custa R$ 8.500 reais por mês. Um custo barato para o tamanho da produção. Por isso, a partir da aprovação do secretário, começamos a gravar e estamos com 98 depoimentos prontos. A segunda fase é colocar o produto em todas as plataformas em sua totalidade, sendo que o “resumão” em formas de “teasers” que você tem visto – forma até o 100 – cerca de 5 programas. Produzimos 92 “teasers” até agora que se fossem pagos pelo custo de mercado, seria aproximadamente R$ 1.380,000 (um milhão e trezentos e oitenta mil reais). Mas esse custo (que não vou revelar) é infinitamente inferior a isso. Se o Estado ajudasse com a iniciativa privada, a verba de publicidade das empresas que nunca se dispõem a participar, o projeto facilmente seria sustentável. Sugeriria até uma parcela dos 500 milhões dados em incentivos fiscais para a Cultura, que resolveriam os problemas de projetos por um bom tempo.

3 – O documentário sobre a artesã Conceição dos Bugres ficou parado por anos e você também perdeu os direitos autorais. O que houve? Como foi a retomada do projeto?

O projeto ficou parado no desinteresse do Estado que ganhou da FUNARTE uma cópia e usou até estragar tudo. Eu proibi o uso da cópia usada porque o contrato com a FUNARTE era de 10 anos e venceu faz muito tempo. Mas o projeto foi clonado na Fundação de Cultura, onde fui pirateado. Descobri por acaso. Uma menina de faculdade me procurou para uma entrevista dizendo que tinha meu filme no pen drive. Fui até a Fundação de Cultura e a resposta na época foi de que isso era procedimento normal de museus. Uma piada. Com direitos autorais e mensalidade de pensão não se brinca. Ainda penso em reagir. Logo nunca perdi os diretos autorais do meu filme. Mas parou porque o Estado nunca se interessou em ajudar com a compra de uma cópia ou a restauração dos negativos de som e imagem do filme. Aí apareceu o Senador Moka, meu amigo, que me deu uma emenda para a recuperação e a compra pela Fundação dos negativos do filme e seu uso, mas preservando meus direitos autorais que são eternos e franqueando o uso das cópias por mim como autor do filme em película. Assim recuperei, digitalizei e entreguei o filme à Fundação. Missão cumprida depois de 6 (seis) meses de enrolação para pagar a emenda.

4 – O cinema brasileiro de uns anos para cá nos grandes centros retomou com boas produções. Como é fazer cinema no Mato Grosso do Sul? Há apoio do empresariado? Dos órgãos culturais? Há projetos como um festival por exemplo?

Outro dia estávamos falando eu, David Cardoso e Joel Pizzini sobre isso e achamos ter nascido no lugar errado. Aqui não vingará o cinema de MS. Tem que vir de fora ou de editais regionais. E vamos ver isso. Temos boas produções no Estado, com cobertura de egos gigantescos de realizadores que levam essa questão ao ridículo. Com isso perdem o cinema, o público e a sociedade. Sem apoio ou leis regionais mais generosas não há possibilidade de se fazer isso. Por exemplo, estou com 3 (três) longas em finalização e não terei ajuda a não ser a do deputado Mandetta no longa do Sasha Siemel. O Festival está sendo adiado, mas com essa vertente latino-americana, com apoio do Américo e da Nilde Brun, a gente ia fazer um Festival abrindo uma temática para o Turismo. Agora com ela na prefeitura, podemos fazer isso. Vamos ver. Meus amigos dos festivais da Bolívia, Porto Velho, Fortaleza estão a fim de vir. Vamos ver.

5 – Como cineasta, como você vê a utilização do cinema e do audiovisual como um todo, como ferramentas pedagógicas nas escolas de ensino fundamental e médio? Seria algo interessante ou foge da realidade no Mato Grosso do Sul. Afinal, como você vê a relação entre cinema e educação?

Como poderia se contra se me eduquei no cinema? Foi na porta do cinema que troquei gibi, joguei bafo, vi cinema japonês no Cine Santa Helena. Briguei e tudo mais. O que me lembro é que no Colégio Dom Bosco, onde estudei, nos sábados ou domingos ia o Oratório. Ali jogava paredão com bolitas e ganhava sempre. Ali via os filmes nas tardes em diapositivo. As aventuras de “rim tim tim” em capítulos. Ficava ali por perto sempre pra não perder um capítulo. Por isso, a lei que obriga o conteúdo audiovisual brasileiro nas escolas é muito boa. A lei foi feita pelo Cristovão Buarque de Holanda e está sendo tripudiada. Sugeri essa semana que os professores se reunissem conosco para estabelecer uma pauta. Por uma boa causa, vou a escola falar de cinema como pastor fala de Jesus da boca pra fora. Eu vou levar o cinema pra dentro. Logo cinema é uma grande ferramenta educativa assim como várias outras, mas carrega uma magia legal.

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